quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Skate levado a sério!


Calma, calma. Eu sei que você anda de skate por diversão, por amor e o caralho a quatro. Antes de ficar putinho, quero deixar claro que não estou falando em levar a sério o ato de andar de skate em si - você pode continuar andando de skate livremente, rachando coca-cola com os amigos leprosos, falando merda pra cacete e se divertir acertando suas manobrinhas - estou falando de levar a identidade do skate. Tá confuso? Se liga no raciocínio:

Quantos amigos você não conhece que andaram de skate e pararam? Andaram pra caralho, evoluiram, tinham o dom ou simplesmente se divertiam direto e do nada pararam? O cara começa a ter outras prioridades, começa a ter que correr atrás de dinheiro e quando vê nem tá mais andando? Tem alguns até que acham que uma coisa só acontece quando não há a outra: ou anda de skate ou ganha dinheiro. Não é assim? Então.

E quantos amigos você não conhece (se bobear até você mesmo) que só andam nos mesmos picos, sempre. Todo rolé é no mesmo local. É street mas o cara só anda numa praça. É street mas é o dia inteirinho rodando num mesmo lugar? E geralmente esses lugares são em bairros fodidos das cidades, lugares abandonados, sujos, perigosos e cheios das paranóias. Eu entendo que skatista é podrão mesmo, até porque se não fosse assim eu acho que eu mesmo pararia de andar (foi justamente isso que me atraiu: a interação de diversas camadas sociais, nas ruas, vivenciando o dia-a-dia real das cidades), mas não acho que tenha que ser só assim. Você pode continuar sendo "podre" ou, ao meu ver, ser simplesmente uma pessoa simples, real, de carne e osso, e não ficar confinado em locais onde você só é aceito por não estar incomodando ninguém.

Me parece que os locais onde o skate é praticado acabam sempre sendo os locais onde "JÁ QUE NINGUÉM USA AQUELA MERDA E TÁ CHEIO DE CRACUDO E MARGINAL, VAMOS DEIXAR ESSES FILHOS DA PUTA LÁ SE DIVERTINDO, SATISFEITOS, E SEM INCOMODAR A GENTE, QUE NÃO PRECISAREMOS FAZER MAIS NADA". E os outros locais? E os locais onde a gente incomoda? E os locais que são perfeitos pra andar, mas são em um bairro rico? E os locais onde passam várias mulézinha style e não as que tão com aquela gelatininha caindo por cima do short de lycra? Lá é só a social né? Lá o skate não tem vez...

Morando aqui no Rio tenho visto centenas de picos foda espalhados pela cidade. Picos perfeitos mesmo, com entrada boa, saída boa, bordas de mármore, transições naturais e mais uma porrada de variedades pra quem for criativo. E mesmo assim, neguinho passa 20 anos andando num só pico, naquela praça podrinha perto de casa onde ninguém enche o saco ou naquela pistinha surrada que você sempre manda a mesma linha, todo os dias. Mas isso não é só aqui no Rio não. Me parece que no Brasil a modalidade não deveria se chamar street skate, e sim spot skate. E os picos de rua na Zona Sul (parte mais afortunada da cidade do Rio)? E os picos de rua na Barra da Tijuca? Ninguém anda? Cadê a sagacidade do skate? Cadê a malandragem do skatista, que se acha o malandrão das ruas?

Ao meu ver, numa visão mais aprofundada, a gente tá caindo onde quem não anda de skate quer que a gente caia mesmo, na marginalização institucionalizada. Mesmo que essa marginalização gere frutos, já que hoje em dia tudo o que é discriminado tá na moda e uns ou outros se beneficiam com isso, acredito que o skate como um movimento perde muito. Os estereótipos tomam conta e o skate fica num radicalismo de 2 extremos, onde um lado quer tornar o skate a coisa mais clean, esportiva e brilhante do mundo enquando o outro quer manter o skate o mais podre possível, marginal, sujo, etc. E o skate não é isso. O skate é algo que você quer fazer e que você tem todo o direito de fazer. Onde quer que seja. Sem vergonha de ser quem você é, sem vergonha de cair, de incomodar.

ANDE DE SKATE E INCOMODE!

7 comentários:

Anônimo disse...

Oi Edu, sou eu, Leticia.
Cara, muito legal seu texto. Até pra quem não anda de skate como eu. Achei legal conhecer um pouco dos questionamentos de quem anda de skate.
Quando a gente morou na França, o Wagner tinha que fazer um trajeto do metrô até a Universidade que era muito curto pra ir de ônibus e muito longo pra ir a pee. Aí ele resolveu comprar um skate (tb pra andar fim de semana, sem muitas ambições, rsrs). Só que ele tava um pouco assim de chegar na faculdade de skate, sabe? Até que ele ligou o foda-se e foi. Nesse dia, quando ele tava entrando, ele viu um cara chegando ... de monociclo!! rsrs, esse sim era o cara mais sagaz de todos!
Mas eu só contei essa história pq eu acho que tem a ver com o que vc disse no último parágrafo. Se vc tá a fim, vc anda. Seja aonde e como for. E isso deveria ser assim com muitas outras coisas...
Beijão!

Eduardo Stuart disse...

É Letícia, eu mesmo muitas vezes fiquei meio "assim" de ir de skate pra alguns lugares mais, digamos, mais elitizados! hehe
Só que já a algum tempo que eu venho percebendo 2 coisas: 1) Foda-se o que os outros pensam. Só que pode tomar conta da minha vida sou eu mesmo. É como diz aquele adesivo muito escroto de carro: falar de mim é fácil, quero ver pagar minhas contas.
2) Que esse sentimento de inferioridade tem todo um porquê envolvido. Tem a ver com nossas raízes portugueses, com a nossa colonização, a forma como fomos colonizados e a forma como aprendemos a lidar com os mais ricos, ou aqueles que julgamos serem superiores. Isso tudo, que é uma grande babaquice, tá enraizado na gente.
Enfim, legal pessoas que não andam de skate lerem porque algumas coisas que falo tem a ver com tudo que não tem nada a ver, sacou? huahuhahaua

Gabriel Croc disse...

É isso ai mesmo Stuart, muita gente tem o skate so como um esporte de final de semana ou ate entao so como um objeto de decoração alem de outras milhares de coisas e nao tem a identidade na real!
Muito irado seu texto seu fdp.

ROBERTO disse...

O skate é marginal porque a vida é marginal. A vida (de verdade) é marginal. O resto é uma burocracia, uma rebolada sem fim buscando adequação a um modo de produção que muita gente insiste em chamar de sociedade.

Eduardo Stuart disse...

É Roberto, esse é o grande paradoxo né? A gente quer ter voz na sociedade, participar e ter nossos direitos assegurados, mas ao mesmo tempo não queremos fazer parte dessa adequação.

Thiago Gorgon disse...

Curti muito tu ter voltando com o blog e logo de cara como um tema bem interessante que em muitas partes me vi e vi a galera daqui, como naquele lance do "spot skate", depois que liberaram andar no CIEP o pessoal daqui não quer mais andar em outro lugar, é só la,la e la. Eu e o Igor estavamos até falando disso essa semana, que tu chama o pessoal pra andar em outro pico, se bobear só um pilha no meio de 20 pessoas e se continuar assim,caso proibam andar la, a mulecada vai parar de andar ? Antes de poder andar la neguinho andava nos outros picos, pra que ficar nessa bitolação ?! Mas continua ai mesmo, é muito bom voltar a poder compartilhar dessas idéias !

cakeria disse...

é isso aí mesmo, eu achei seu texto tudo a ver com o que não tem nada a ver ... por mais complexo que isso seja... rsrs. "serviu" pra mim. parabéns pelo blog! :)