domingo, 9 de agosto de 2009

Realidade esquizofrenizante!

Outro dia ouvi isso numa aula e tive que rir pra caralho. "Realidade esquizofrenizante". É um termo no mínimo engraçado, se é que a palavra esquizofrenizante existe ou foi apenas um neologismo da maldita professora ! Na hora acho que ri mais pela sonoridade das palavras em conjunto do que pelo seu sentido. Ou por ter me situado automaticamente em situações esquizofrenizantes várias vezes, repetidas vezes, no meu dia-a-dia. Pelo menos a meu ver.
Andar de skate, por mais que não pareça, é esquizofrenizante. Por mais que cada um tenha o seu sentido individual de skateboard (um anda apenas “for fun”, o outro quer seguir carreira, o outro quer buscar a evolução, e por aí vai), todos concordam que uma das melhores coisas que o skate nos proporciona é uma vida paralela à vida comum, de pessoas comuns, que seguem as regras da sociedade como cordeiros, que seguem uma realidade esquizofrenizante pra caralho. O skate nos dá a sensação de que estamos de fora da sociedade, o que é um tremendo equívoco. Praticamos algo que é pago. Nosso skate é pago, nosso skate custa dinheiro. Para você andar de skate, você precisa estar inserido na sociedade de alguma maneira: trabalhando para conseguir dinheiro para comprar o seu skate, contribuindo para a sociedade; usando o dinheiro de terceiros para comprar seu skate (pais, namorada, familiares, vítimas de assalto, etc.); ou sendo um skatista amador ou profissional, ganhando suas peças graças aos que precisam pagar pra comprar o skate trabalhando ou sugando terceiros. Em qualquer destas situações, você está fazendo parte da sociedade, gerando empregos, movimentando dinheiro, gerando aborrecimentos, alegrias, e fazendo parte de uma realidade esquizofrenizante.
Eu fico puto ao ver que várias vezes o que nos parece ser algo extraordinariamente bom pode nos prejudicar de maneira inversamente proporcional. Deixamos de participar de decisões importantes da sociedade, que poderiam nos favorecer, e muito, por nos sentirmos à parte. Por não nos sentirmos como membros da porra da sociedade. Por mais que não nos agrade nem um pouco a idéia de fazer parte de algo tão sujo, algo totalmente contra o que fazemos, a realidade é essa. Fazemos parte de uma realidade esquizofrenizante.
Acho que o legal seria pensar o seguinte: cara, eu ligo o noticiário da TV e fico sabendo quantas pessoas morreram num deslizamento de barreira na Tunísia, assisto a um filme no cinema onde eu fico sabendo visualmente como é a cabeça de alguém explodindo após a explosão de uma granada, abro o jornal de Domingo e descubro que enquanto o prefeito da minha cidade negava uma verba de R$50.000,00 para a construção de uma pista de skate pública ele gastava R$100.000,00 do dinheiro público em um mês de férias no Caribe e vejo a proliferação de pessoas que se auto-intitulam religiosas e ao mesmo tempo fazem o que for preciso para encher o bolso de grana. Então, eu, andando de skate, gastando meu dinheiro pra isso, procurando evoluir em algo que não prejudica ninguém e, ainda por cima, me divertindo com isso, sou um dos menos filhos da puta nessa realidade esquizofrenizante e tenho todo o direito de reclamar pelos meus direitos de cidadão esquizofrênico.

3 comentários:

Eduardo Campagnoli disse...

Rapá, esse negócio de realidade não tá com nada. A parada agora é os tóchico.

Tiago Cambará (o Ti) disse...

Muito bom, esquizofrenizante. Parabéns!

Thiago "gorgon" disse...

Conseguiu filosofar com o skate e ter sentido, maneiro !