segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

The Old Is Cool in Petropolis, seu animal!!! Entrevista com Jony Anderson




O skate é um "esporte" conhecido pela sua espontaneidade, seu espírito trangressor e por suas idéias pouco tradicionais e convencionais. Existem épocas em que esse espírito adormece um pouco e são nessas horas que precisamos de pessoas que tenham coragem de falar o que pensam, sem se importar com as consequências; pessoas com atitude pra tentar mudar e inovar o skate. Skatista Old School e muito conhecido na cidade de Petrópolis, Jony Anderson é dessas pessoas que têm idéias diferentes às da maioria das pessoas, fato que faz com que muitas vezes essas idéias sejam imcompreendidas. Com 35 anos, Jony é publicitário, trabalha como freelancer em acessoria em web marketing, editoração de jornal e material gráfico, é fotógrafo de esportes e ainda arruma tempo pra produzir um vídeo de bike com alguns atletas petropolitanos (teaser do vídeo no youtube, http://www.youtube.com/watch?v=qvMBYcHm8jE).
Já que o Skatesemfins é um espaço aberto a todos, de preferência àqueles que tem algo legal pra falar, é com enorme prazer que publicamos essa entrevista, para aqueles que não o conhecem ou para os que já o conhecem, mas que ainda não conheciam suas idéias. Se liga aí, aproveite e depois, vá andar de skate!



Fala aí Jony, beleza?

Colé Stuart...

E aí cara, como anda o teu joelho? Quer dizer, pra começar, conta como foi o ocorrido (pra quem não sabe, ele estourou o tendão patelar a alguns ligamentos do joelho num entorce).

Cara, no primeiro dia de sol de 2007, dia o7 de Janeiro, depois de dias de chuva e tempo ruim, eu comecei o meu ano. Eu decidi que seria um ano de mudanças e dentre elas, estaria andar mais de skate, ou melhor, voltar a andar direito, que eu não tava andando. Então, cumprindo o cronograma, nesse primeiro domingo de sol, eu saí pra andar de skate. Tava lá na mini ramp, apenas dando umas batidas e só. Numa session dessas, na última batida, de front, já baixinho e perdendo velocidade - sabe quando você dá aquele mole e o skate ejeta? - aí o skate deu uma escapulida e eu pulei fora, mas não sei por que, acho que pela virada do corpo e por estar na transição, o pé prendeu no chão... firmou, e o corpo rodou em cima. Até arrepia de contar cara... aí levou meu joelho inteiro embora. E meu joelho não tá bom até hoje e não sei se fica bom, infelizmente.

Cara, e o pior é que é sempre assim que a gente se machuca, quando tá andando de sacanagem, já no fim da sessão.

É, aquele papo de "última manobra" (risos)...

Bom, então, fala aí quando e como você começou a andar de skate.

Caraca... acho que foi em 82. Comprei meu primeiro skate de um amigo da época de academia de judô, era um ABS 500, banana, gringo, legal. Mas depois quebrou e fiquei sem skate, até ganhar uma bosta de um RK (que eu quis comprar), cheio de sacanagem. A porcaria simplesmente não funcionava... então, com o passar do tempo, fui fazendo rolo, comprando peça aqui e outra alí e meu primeiro skate decente, que eu recordo, era um com shape Lifestyle Fernandinho Batman e rodas Powell Peralta Three, gigantes!!! O resto das peças eu não lembro, mas já era rolamento, porque antes disso era só caixa de bilha.

E como era o cenário do skate na época no Brasil e, principalmente, em Petrópolis?

No Brasil não, em São Paulo, porque era lá que tudo acontecia na época. Ainda é assim, mas era muito mesmo, tanto que a galera daqui tinha vontade de morar em Sampa por causa do skate. E em Petrô era foda cara! Era maneiro, porque era coisa de galera, de amigo. Tem gente que tem amigo do colégio, do bairro, do prédio; eu e meus amigos tínhamos amigos do skate. A gente andava prum lado e pro outro, catava compensado pra fazer rampa, fazia vaquinha pra comprar coisas e fazer obstáculos. A gente tinha uma casa pra andar...

Como assim?

Invadimos uma casa abandonada e com as portas da casa fizemos rampas e um monte de coisa. Era louco, a gente andava lá direto e tinha as mães de uns amigos que não deixavam eles irem porque a gente ficava andando numa casa abandonada. Nos chamavam de invasores! Era engraçado. No final todo mundo andava lá.

Caralho, que foda!

Tá ligado onde fica o Alaor, ali no Centro? Subindo pra Ipiranga? Era aquela casa antes dele.


Jony, 50/50 num clássico pico Old School: Catedral



Porra, grandassa... E quem andava nessa época? Alguém que se destacava?

Cara, tinha uns malucos que andavam muito, mas naquela época, como num tinha incentivo, vi muitos mudando pra outros esportes ou parando de vez. Tinha o Pitty, que mandava uns ollies muito altos e esculaxava na mini ramp da Urca. Quando ele chegava lá nego bolava, o muleque tinha o dom. Outro era o Menudo. Também andava muito e parou. Da galera das antigas, todos tinham suas cartas na manga. Eu mandava muita variação de no comply. O Márcio mandava muitos boneless e todos os slides possíveis em ladeiras. O Vareta (Márcio Warwar, trabalha hoje na prefeitura) tinha um ollie cabuloso e um flip também. Cada um tinha uma maneira diferente, mas todos faziam de tudo um pouco.

Você continua tendo contato com eles?

Eu e o Amplus somos amigos até hoje. Amigos mesmo, de se falar todo dia, se esbarra e trocar idéia sobre tudo. O resto da galera tenho contato, gosto deles e, de vez em quando, vejo o Vareta. O Fábio Gordo também é dessa época, mas não pegou o começo, é um dos meus melhores amigos e a gente também se fala direto. O Márcio tá nos States. Cada um foi pra um lado, mas todos se conhecem ainda e se gostam.

Me fala do João Tripa. Ele andava tanto assim mesmo? O cara é tipo uma espécie de lenda do skate entre o pessoal que andava quando comecei a andar.

Na época era engraçado. Ele zuava os muleques vendendo 1 metro de Silver Tape medindo com uma régua de 50 cm! Ainda mostrava pros caras: "Aqui óóóóóó, tô medindo... 1 metro". Mas isso não é legal, não tem nada a ver passar os outros pra trás. É escroto ficar zuando os muleques...

É, o Furugem contou essa história, rindo pra caralho!

Mas ele dava um rolé maneiro saltando rampa, jumpando. Tinha a manha.

Mas não era o monstro que neguinho falava então?
Não, nada disso. Andava bem, mas não tinha o "monstro" na época. Tinha os caras que apareciam e sumiam. Esses não contam.

Quais foram as conquistas que esse pessoal teve com o skate na cidade, em relação a pistas, campeonatos, etc?

Teve um campeonato em 89, se não me engano. Um encontro da galera numa ladeira. Depois teve o campeonato da Shop 16. E só.

Cara, lembro que na época que comecei a andar rolava umas tretas entre o pessoal que você andava e o pessoal que eu andava. Até hoje não sei o por quê disso; você sabe? (risos)

Eu só lembro de uma treta. Ela teve início mais porque antes não tinha treta nenhuma e nego resolveu criar uma. Então, alguém disse pro Fábio Gordo que a galera das antigas ia ter que andar em tal lugar e a nova era ia andar em tal lugar. Porra, bairrismo? Puta que o pariu, isso nunca existiu. A gente andava em todos os lugares. Acho que nego tava vendo muito filme de gangue na época aí meteram essa. (risos). Fiquei puto e fui tirar satisfação, não lembro nem com quem. E só. Nunca adimiti nego tirar onda com a minha cara, porque eu não tiro com a de ninguém. Se é briga, ok, vamos cair na mão. Por isso que ás vezes dava alguma merda. Nego gosta mais de gastar onda que anda do que de andar de verdade. Gosta de fazer estilo, de carregar skate. Se antigamente a gente tinha que ir da 16 até o final do Centro, a gente ia andando de skate cara, na calçada, desviando das pessoas. Jogava pra rua, jogava pra calçada, usava os canos que conseguíamos andar, pulava escada... Porra, a gente fazia STREET. A gente não sonhava que tava fazendo street num Park, a gente realmente andava de street. Mas como tudo muda, o skate mudou. Não tem mais essa vibe merdeira. As vezes sem querer atropelávamos alguém, esbarrávamos em outros, mas era mulecagem. Não tínhamos a intenção de agredir ninguém. A gente pedia desculpa, mas nego xingava a gente! Éramos arruaceiros pras outras pessoas.

Acho que isso é uma das coisas que mais sinto falta hoje em dia. Mas essa mudança foi mundial né? Até o Shiloh Greathouse fala isso no First Love da Transworld...

É, tô ligado. Mas porra, quem passou por isso tá ligado que era uma das coisas mais maneiras do skate.

Já que a gente tocou nesse assunto, você acha que o skate perdeu a essência ou todo esse capitalismo envolvido veio pra somar?

Tenho dois pontos de vista, onde é difícil escolher um só. O bom era a vibe, o clima de amizades. O skate como ele realmente deveria ser. O ruim era a falta de estrutura, a falta de grana pra comprar material, a dificuldade de conseguir as coisas. Hoje já tá tudo generalizado. Você acha tudo em qualquer lugar. Ainda tem a internet pra você comprar direto lá de fora. Hoje, se você tem grana, você usa o tênis que quiser, o shape, as marcas, tudo. Antes, no Rio, só se vendia shape gringo na Bali Cadu, lá na River. Me lembro de ir lá várias vezes e só sonhar em um dia ter um daqueles, porque não se tinha grana pra usar deck gringo. Outra coisa dos decks gringos é que duravam atéééééééééé num ter mais tail pra bater ollie. Não quebrava. Hoje já é tudo descartável.

Você já ouviu falar na campanha Don't do it (www.dontdoitarmy.com) contra as marcas que não são do skate e que estão entrando na cena (Nike, Adidas, Reebok, etc)? O que você acha disso?

Pô, eu me lembro de boicotar a Nike. Rolou uma parada assim. O Júlio Feio e o Gordo me falaram que tava rolando isso (anos atrás). Tinha até um vídeo em que um carinha andando de skate era esmagado por um maluco gigante com um tênis Nike... Eu não tinha acesso à net, essas coisas, e comprei o peixe que me venderam: a Nike tentou entrar no mercado e não conseguiu, então começou a escrotizar o skate. Fiquei um tempo sem usar por conta disso. Sobre essa campanha, se ela é recente, eu não sei de nada, mas que as grandes marcas querem de tudo um pouco, isso é verdade. Mas tem que se analisar o que elas fazem pelo skate. Se todo mundo tivesse a consciência que apoiar uma marca que faz ao invés da marca da moda, essas marcas simplesmente não existiriam. Por que você vai usar Nike, que nunca fez nada pelo skate, ao invés de usar, por exemplo, um DC que surgiu pelo skate e está aí até hoje? É foda. Sem falar de Vans e outras das antigas. (Nota: a DC Shoes foi vendida pela gigante do surfe Quicksilver)

Você acha que ainda tem pra onde o skate evoluir e, se tem, como seria essa evolução?

Eu tenho visto um retorno às piscinas, um retorno ao street rápido e agressivo, um retorno às raízes, usando todas as coisas boas que aconteceram nesse meio tempo. Cada vez mais é gente andando pra cacete e cada vez mais novos. Tem um muleque brasileiro que é pupilo dos gringos lá que só anda em piscina. Tem que ver o rolé do muleque. Acho que o skate vai partir pra uma nova era; ele vai voltar ao passado, mas melhorado.

Então como que você vê essa mulecada de hoje destruindo no skate? Tem alguém daqui que você considera talentoso?

Daqui da cidade?

É. Mas a mulecada que digo é em geral, no mundo. Porque a idade tá caindo cada vez mais no skate... como você vê isso?

Daqui de Petrô eu gosto do teu rolé, do Alecrim e do Uércules, se bem que eu não o vejo andando faz tempo. Do Brasil de uma forma geral, eu gosto do rolé do Ueda e acho que falta pouco pra lee se dar bem. Talvez seja a parte psicológica. O Allansinho é o meu preferido (Allan Mesquita). O cara é gente boa e anda muito, tem estilo. Lá de fora eu tenho visto bastante coisa do Chris Haslam, porque ele faz coisas diferentes, mas confesso que não curto esse estilo roqueiro mendigo. E, desde sempre, curto o rolé do Omar Hassan. O Bob é bonito de ver andando.

E, por falar em Petrópolis, você acha que existe uma solução ou a solução é sair fora daqui?

Solução só tem se houver interesse da Prefeitura, mas isso não significa que você deva ficar de braços cruzados. Tem que reivindicar as coisas que deseja. Se tem cidade muito menor e muito mal estruturada com lugares ótimos pra andar de skate, por que aqui não tem nada direito? Tem que ter. O cara que anda de skate aqui tem que saber o que ele quer. Ele quer projeção nacional? Então tem que sair fora daqui, tem que suar a camisa e mandar as manobras da hora, da moda, no seu estilo, pra alguém te ver. se você quer apenas andar de skate e se divertir, é legal você ter onde andar, e andar em lugares diferentes. O Amplus me falou uma coisa esses dias, quando a gente tava lembrando que tentamos várias vezes fazer com que construíssem uma mini aqui na cidade e nada aconteceu. Ele disse: O que seria da gente se naquela época tivesse saído a mini que a gente tava querendo? Eu respondi que hoje seria muito diferente. Onde estaríamos eu não sei. E ainda falei que a cada esquina que cruzamos, a história muda. Então, com uma mini naquela época, muita coisa seria diferente...

Se você pudesse dar conselhos pra galera do skate na cidade de hoje não cometer os mesmo erros que foram cometidos no passado, o que você diria?

É até escroto falar isso, mas não tinha nada errado antigamente. Só a época, financeiramente falando. Mas o que posso citar das antigas que a galera poderia pensar mais em praticar é: a amizade, a união e a humildade, falando de um modo geral.

Pô, tá faltando muito isso cara. Muito.

Vejo muito skatista pregando o lema humildade acima de tudo, paz e amor, e no fundo é um cara muito otário. Eu já vi isso de alguns pros. A gente não tinha discriminação com ninguém. Se o cara é bom ou não, se o skate era assim ou assado, sacou? Todo mundo era uma coisa só: era skatista! Isso era o que importava. A gente não fazia mal a ninguém e dávamos sermão quando alguém dava uma vacilada. Acho que em Petrô o filme dos skatistas continua ruim, as pessoas taxam skatistas de vagabundos, drogados e etc. Pra você ter uma idéia, a galera do skate era sempre importunada quando andava nos dias de chuva lá na D'Ângelo. Até polícia já deu, várias vezes, enquanto outros caras consumiam drogas do outro lado da rua. Nunca os moradores chamaram a polícia por causa deles. A gente incomodava mais do que os drogados, que por sua vez atraíam traficantes e outros vagabundos. Uma pena as pessoas pensarem assim. Então, pra não deixar essa imagem ruim se sobresair, o ideal é se manter na linha. Andar de skate sim, mas sem fazer merda. Tem muito muleque que não tem educação em casa, aí sobe num skate, cola com a galera e se acha o dono do mundo. Respeito tem que ser recíproco. Se você quer respeito, você tem que antes de qualquer coisa respeitar os outros. Saber falar, saber se portar. Acho que isso resume a real atitude de um skatista, o quê um skatista deve ter.

Quer deixar algum recado, um agradecimento ou conselho pra galera? Sinta-se à vontade.

Acho que o que eu gostaria de ver está na última resposta que eu dei. Quero ver uma galera que faça a diferença lá na frente. Sem querer, eu e uma galera aqui das antigas, fizemos a diferença. Tem sempre alguém pra dizer que lembrava da gente antigamente andando de skate. Se eu tô gripado, nego me pergunta se foi andando de skate! É engraçado. (risos) Então, sem querer fazer história, acabamos fazendo cara. Por isso eu voto sempre por você fazer alguma coisa, seja lá se vai dar certo ou não, mas você tentou. As pessoas não vão fazer nada por você, você que tem que fazer as coisas acontecerem. Não adianta, nada cái do céu. Então, se tem um recado final, digo: "Faça por você mesmo e não por mim". Se você quer uma rampa, por exemplo, mas ninguém quer dar dinheiro e te ajudar a fazer, dê um jeito e faça você mesmo, independentemente se todo mundo ou aquele cara lá te ajudou ou não a construir. O que importa é que você fez. É isso! *

5 comentários:

Renan disse...

Ideias boas, o caminho é esse, (o mapa está ai basta siguir).

Campagnoli disse...

Amizade, união e humildade. É o que falta mesmo. O resto é consequência desses 3 ingredientes.

JONY disse...

Valeu pelos coments galera!
A idéia é essa, funcionava antigamente e tenho certeza qua ainda funciona.

Abraços!

Anônimo disse...

Fala Jony

É o André Viana "Gordo" de Nova Iguaçu... tu e o amplus era fodah mesmo!!! me lembro que eu tava começando a andar de skate em 89, ia p petropolis andar de skate com vcs na calçada perto da 16 e era foda... vcs mandando vem no street e no solo, porem maior atenção com agente q na epoca ta começando! Muito maneiro cara! Muito legal ser amigo de vcs! E ter participado destas sessions!!! hehehe

JONY disse...

Caraca...até o André de Nova Iguaçu apareceu aqui.
hauhauha
Maneiro cara!
A gente se conhece há mó tempão msm.
E tamos ae na área até hoje.
Legal o seu trampo e o que faz pelo skate hoje cara.
Te vejo lá nos X Games!
Abração........